Conheci a Clotilde Tavares lendo uma matéria sobre qualidade de vida na revista do Globo deste domingo. Adorei o tema e adorei as intervenções dela. Graças ao mundo virtual, não foi difícil achá-la na rede. Solícita e simpática, respondeu de imediato meu mail pedindo uma entrevista para o Blog. Segundo ela, é possível ser feliz no dia-a-dia. Basta ter a convicção e a vontade para isso. " Acordo todo dia com a firme disposição de ser feliz naquele dia", ensina a autora de A magia do cotidiano.As pessoas sempre enxergam a felicidade como algo gigantesco a ser conquistada sempre no futuro. Por que dificilmente a idéia de felicidade é trazida para o dia-a-dia?
Penso que nós, ocidentais, cristãos, fomos criados dentro de uma tradição bíblica do "comerás o pão com o suor do teu rosto", "parirás teus filhos com dor", e talvez tenhamos sido educados para pensar que não temos o direito de ser felizes. Quando a gente é criança, e está feliz, alegre e pinotando pelo meio da casa todos brigam conosco, mandam ficarmos quietos, dizem que somos traquinas e levados. Mas se estamos doentes, acamados, com febre, nos tratam bem, dão carinho, dão comidinhas especiais... Aí aprendemos desde a infância que se estivermos mal, sofrendo e reclamando, ou seja, infelizes, vamos conseguir mais carinho e afeto do que se estivermos felizes.
Por outro lado, colocamos a felicidade sempre em "coisas", em "realizações". Vou ser feliz quando passar no vestibular, quando me formar, quando comprar meu carro, quando encontrar o amor da minha vida, quando nascer meu primeiro filho, quando meu filho passar no vestibular... E por aí vai. Colocamos a felicidade sempre em algo externo a nós e que, muitas vezes, não depende da nosa vontade. Aí, nos frustramos e ficamos infelizes quando as coisas não acontecem do jeito que a gente queria.
Para mim, felicidade tem a ver com a disposição de curtir a vida, com tudo o que ela tem de bom e de ruim. Tem a ver com o prazer de estar vivo, de desfrutar do mundo, das pessoas, da Natureza, da Arte, da beleza, da Poesia. E também com a capacidade de trabalhar de produzir, de contribuir com a nossa parte para que o Universo fique mais harmonioso e belo.
Quais são os maiores inimigos da felicidade diária?
O perfeccionismo, o autoritarismo, a necessidade de controlar os outros, a negação de si mesmo e das suas necessidades, a pressa e a falta de tempo que são gerados pelo mau gerenciamento da vida.
E os maiores aliados?
Descobrir o que lhe estressa e estabelecer mecanismos para minimizar o estresse; ser tolerante, aceitando o outro não naquilo em que ele é igual ou parecido com a gente mas sobretudo no que ele tem de diferente; ter um trabalho criativo, que nos dê prazer; desenvolver a auto-estima, se amar, gostar de si mesmo - e isso inclui cuidados com o corpo, como alimentação exercício, sono... e finalmente amar, amar incondicionalmente, deixar de fazer do amor uma moeda de de troca e gostar de verdade de gente, homens, mulheres, filhos, companheiros, alunos, colegas...

Você aplica isso no seu cotidiano?
Acordo todo dia com a firme disposição de ser feliz naquele dia. Há dez anos atrás era muito difícil, porque ao longo do dia aconteciam coisas que me desviavam dessa meta. Com a prática, e o exercício diário, hoje já estou bem mais habilidosa na tarefa de ser feliz. Penso que daqui a uns dez anos vou estar mais competente ainda. É tudo uma questão de prática, de treino, de desenvolver essa habilidade.
Como você vê a procura e a atuação das terapias alternativas, como os florais, por exemplo, para um dia-a-dia mais saudável, harmonioso e equilibrado?
Eu mesma sou terapeuta floral, tenho curso e tudo o mais, trabalhei durante cerca de oito anos nisso. Atualmente não estou atendendo, pois estou escrevendo e não sobra tempo para a clínica. Mas vejo com bons olhos qualquer procura de soluções para os problemas que não tenham muitos efeitos colaterais nem acarretem danos para outros setores da saúde do indivíduo. No entanto, penso que o radicalismo não é aconselhável, e existem dooenças e problemas em que é preciso apelar para alopatia, cirurgia, etc. É tudo uma questão de ter discernimento e não radicalizar.
A felicidade é uma fórmula fechada ou cada um constrói a sua dentro de suas possibilidades e limitações?
Cada um deve construir a sua. No meu livro A magia do cotidiano (A Girafa Editoras, 2005) eu compartilho a minha experiência com os leitores mas deixo bem claro que não há receita. Cada um tem que encontrar a sua forma de ser feliz.
Vivemos num mundo de felicidades "compráveis", que passam pelo carro da marca tal, o silicone, a chapinha, a roupa de grife, deixando todo mundo padronizado, como se só assim fosse possível ser feliz. Na sua opinião, isso é um impedimento para a felicidade individual?
Eu seria hipócrita e mentirosa se dissesse que não gosto do dinheiro nem das coisas que o dinheiro compra. Essas coisas absolutamente não "impedem" a felicidade mas às vezes a pessoa mistura os canais, e passa a pensar que, tendo tais coisas, será feliz. As coisas que trazem felicidade não têm nada a ver com aquelas que o dinheiro compra. As pessoas podem ter ambas, e somente a capacidade de discernir umas das outras já seriam um primeiro passo muito bem dado no caminho da felicidade. Eu adoro uma roupinha de griffe, uma bolsa chique, bons restaurantes, CDs e livros. Mas felicidade mesmo são os bracinhos do meu neto em torno do meu pescoço, é ver minha linda filha Ana Morena cantando no palco, e olhar para este céu azul da Paraíba e saber que nasci neste chão, que sou filha desta terra. Isso é felicidade e dinheiro nenhum no mundo pode comprar
